domingo, 27 de agosto de 2017

Um Paralelo entre dois ícones de nossa história militar: Almirante Barroso e Marechal Osório


Por: Jonas de Moraes Correa Neto

Eram dois bravos! Barroso, oficial de Marinha, ensimesmado, meticuloso, competente, hábil marujo, experiente nas fainas marinheiras e nos postos de combate de muitos navios. Osório, oficial de Cavalaria, extrovertido, arrojado, experimentado nas tropeadas e nos entreveros, nas cargas violentas e nas lutas sem quartel. Eram ases naquilo que faziam, por profissão e por nobreza, cumprindo missões de perigos e de sacrifícios, chefiando de perto gente aguerrida e estóica, gente que obedecia sem vacilar, confiando neles.

Um, Barroso, gozava da consideração dos seus chefes e pares; mas não era renomado entre a marujada, salvo entre quem o conhecia. O outro, Osório, cedo ficou célebre lá nas refregas do extremo sul, onde seus feitos eram contados nas rodadas de mate, nas prosas dos galpões e nos fogões gaúchos. Barroso não teve seu nome amarrado a um toque de corneta, nem silvos de apito poetizando sua pessoa. Osório teve. Em seu louvor, compuseram compassos de clarim, que anunciavam à tropa: “Lá vem Manoel Luís!”  
Pois assim chegaram os dois, cada qual com sua personalidade, ao seu momento de maior glória: Barroso em Riachuelo, Osório em Tuiuti. Então, estiveram formidáveis. E se projetaram com brilho ímpar, como padrões de liderança militar, na História do Brasil. Estão imortalizados, nas Forças Armadas, como uma espécie de vice-patronos da Marinha e do Exército. Tudo isso tem levado a estabelecer um paralelo entre as figuras do Almirante Barroso e do General Osório. A especulação se justifica: eles foram as personagens exponenciais de duas batalhas duríssimas, de imensa importância, logo no começo da Guerra da Tríplice Aliança contra o governo do Paraguai.

Em Riachuelo, a 11 de junho de 1865, travou-se um combate naval que iria assumir status de batalha em vista dos meios envolvidos e, principalmente, do seu resultado, essencial para o prosseguimento das operações aliadas em curso, tanto nos rios quanto em terra. De fato, a força naval paraguaia, ao perder a maioria dos seus meios flutuantes, o que definitivamente perdeu foi a capacidade de disputar o domínio das vias fluviais. Nessa batalha, a Bandeira do Brasil encontrou-se sozinha diante do inimigo! O comandante, o vencedor, foi o Chefe-de-Divisão Francisco Manoel Barroso.  
Em Tuiuti, a 24 de maio de 1866 (menos de um ano após Riachuelo), ocorreu a maior batalha campal jamais travada em campos sulamericanos. Foram incontáveis os rasgos de valor; esbanjou-se valentia (aliás, de parte a parte). Quando terminou a peleja, as forças terrestres paraguaias estavam mais do que vencidas: estavam impossibilitadas de, em médio prazo, recuperar-se com recursos humanos e materiais em condições de enfrentar as exigências da campanha que viria. O Paraguai fez, sim, prodígios de superação; porém, após a derrota em Tuiuti, nada mais conseguiu do que cair numa defensiva desesperada, sem chance de reversão.

Nessa pugna, atingiu dimensão solar a pessoa do comandante do Exército Brasileiro e líder de batalha de toda a força aliada, o Marechal-de-Campo Manoel Luís Osório. Eis aí os dois titãs dessas pelejas retumbantes. Quem eram eles, realmente, esses dois chefes exemplares? Vamos ver-lhes as vidas, em enfoques paralelos e ligeiros.

INDIVIDUALIDADES

Barroso nasceu em Lisboa em 29 de setembro de 1804. Veio para o Brasil no navio que trouxe a Família Real, em 1808. Tinha quatro anos e acompanhava seus familiares, pois seu pai, Capitão da Brigada Real de Marinha, era comandante de uma das baterias de canhões da nau capitânia Príncipe Real (atingiria o posto de tenente-coronel). Desde moço, Barroso era fechado, pouco falante. Teve uma educação básica e depois a profissional, feitas com esmero na Corte (Rio de Janeiro). Escrevia com correção, em geral de modo conciso, mas exato para seus fins.

Não há trabalhos literários de sua autoria, só os funcionais (diários, relatórios, correspondências). Merece ser destacada a “tocante, singela e elegante parte do terrível e glorioso combate”, parte na qual (no dizer de ilustre historiador) “brilha a calma tranqüilidade de um bravo e a virtuosa modéstia de um benemérito”. Principia Barroso com a frase lapidar: “Não fizemos tudo quanto desejávamos, mas quanto podíamos”.

E se estende em precisos relatos, em observações, citações de pessoas e fatos, e em culto à verdade, como neste ponto: “O inimigo nos esperava e não fugia”. Essa parte confirma que “o estilo é o homem”, pois nela se identifica, muito além da secura do chefe, um estado de alma. De Barroso, porém, pouco – pouquíssimo – nos chegou de seu espírito. Era atilado. Empregava muito a gíria marinheira e era dado a usar expressões estereotipadas, para situações parecidas, como esta: “cada pau aguenta com a sua vela” (i. é: cada um com sua tarefa).

Partiram dele os emocionantes sinais de Riachuelo, bastante difundidos entre nós, como: “atacar o inimigo que a glória é nossa” e “o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Convém citar, por altamente expressivo, o que Barroso afirmou ao Almirante Carlos de Noronha: “A minha maior glória... (não é Riachuelo...) .... é ter ido de aspirante a almirante sem fazer mal a ninguém.” (num encontro em Montevidéu, tendo ele quase 80 anos e estando cego). A vida militar de Barroso foi sempre coerente.

Ele foi marujo por vocação; mais do que isso: por gosto. Era um completo lobo-do-mar. Também era, no miudinho, um técnico naval, um conhecedor sapiente da maneira correta de realizar tarefas típicas, de fazer revisões e reparos nas estruturas e nos elementos propulsores dos navios, de manter, dispor e usar o armamento. Esse “hábil manobrista e excelente navegador” era um instrutor capaz, um disciplinador cuidadoso, um homem firme e corajoso – portanto, um combatente.

Osório nasceu em 10 de maio de 1808, em uma estância gaúcha do início do século XIX, com todas as influências culturais e sociológicas que tal origem continha. Era filho de um modesto furriel de tropas provinciais, pouco depois passando a agricultor e, no ambiente fluido das lutas fronteiriças, de novo militar, tão conceituado que chegaria a tenente-coronel. A instrução básica de Manoel Luís foi rudimentar. Estudos profissionais regulares nem pôde fazer; quando teve oportunidade, ainda jovem, requereu matrícula na Academia Real Militar, mas foi-lhe negada, sob a alegação de que faria falta na campanha da Cisplatina.

É que carecia de uma garantia de berço. Porém, esse escanteio não diminuiu nele a sede de aprender e, durante toda a sua vida, tratou do auto-aprendizado – inclusive do profissional – nos cursos realísticos da tarimba militar prestante. Osório não redigia bem; aos poucos, com atenção e persistência, foi melhorando e alcançou boas condições. Falava bem, com clareza; era bom orador, fluente, direto ao assunto; discursava com naturalidade e ênfase, podendo ser cortês, ferino, desbordante ou gozador. Era dado a versejar, e repentista incisivo, mordaz, mesmo em questões de serviço.

Deixou-nos uma porção de pensamentos, de ditos, que são, por si sós, retratos precisos – e preciosos – do cidadão que ele era, e verdadeiras máximas de comportamento ético e de posicionamento diante de assuntos relevantes. Assim como Barroso com os jargões dos marinheiros, Osório habituou-se ao linguajar típico dos gaúchos da fronteira (brasileiros e platinos, em sua interpenetração) – palavreado, dizeres, expressões. De Osório, não se pode afirmar que tivesse sido militar por vocação.

Foi-o quase que somente por efeito do ambiente belicoso do Rio Grande do seu tempo, que o arregimentou ainda um menino e, pelas suas qualidades, conservou-o engajado pela existência toda. Ele mesmo confessou: “eu, que sou soldado sem muita paixão pela vida de guerra...”; e disse que o dia mais feliz de sua vida seria quando visse serem queimados todos os arsenais. Dizia também que entrava nas campanhas devido ao “sentimento do dever”. É... e aí fazia aquilo que sabia fazer melhor: comandar forças em combate, liderar homens debaixo de fogo e presenteá-los com vitórias.

CARREIRA MILITAR

Barroso foi praça aos 17 anos (18 outubro de 1821) como aluno na Real Academia de Marinha. Saiu guarda-marinha um ano depois (27 novembro 1822). Durante cerca de 30 anos galgou todos os postos até atingir o generalato: chefe-de-divisão, em 2 dezembro de 1856. A seguir, e já Barão do Amazonas (3 de janeiro de 1866), foi promovido a chefe-de-esquadra (21 janeiro de 1867), vice-almirante (12 abril de 1868) e, ao final, reformado como almirante (9 de maio de 1873).

Osório, que desde cedo acompanhava seu pai em muitas jornadas arriscadas, começou como soldado de Cavalaria (1o de maio de 1823). Ia fazer 20 anos e servia na Legião de São Paulo, no sítio de Montevidéu. Em outubro de 1824, era primeiro-cadete no 3o Regimento de Cavalaria do Exército. De dezembro de 1824 até o generalato, foram 27 anos percorrendo a cadeia hierárquica. Em 2 de dezembro de 1856 (exatamente na mesma data de Barroso), também alcançou o generalato: brigadeiro graduado; seria efetivado em 15 junho de 1859.

Em seqüência, foi promovido a marechal-de-campo (8 julho de 1865), já na Guerra do Paraguai, foi feito Barão do Herval (18 de maio de 1866, no mesmo ano de Barroso); depois tenente-general (1o de junho de 1867) e, finalmente, marechal-do-exército graduado (27 junho de 1877).

CAMPANHAS

Barroso participou, na Cisplatina, da guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, entre 1826 e 1828; era guarda-marinha, logo segundo-tenente, embarcado em diversos navios. Teve seu batismo de fogo em 29 de dezembro de 1826, como imediato do Brigue-Escuna D. Januária, em combate no Rio Negro (Alto-Uruguai). Finda essa guerra, à qual se deveu o nascimento da República Oriental do Uruguai, continuou Barroso em serviços rotineiros, próprios de sua patente, nas mais das vezes embarcado – até como imediato do seu antigo colega de Academia, seu grande amigo Joaquim Marques Lisboa (o futuro Marquês de Tamandaré e Patrono da nossa Marinha).

Em 1836/37, no comando do Brigue Brasileiro, como capitão-tenente e capitão-de-fragata, tomou parte na luta contra a revolução dos cabanos, no Pará. Durante a Revolução Farroupilha (1835/45), não esteve em ações de combate, mas algumas vezes, embarcado, cumpriu missões entre a Corte e o estuário do Prata, principalmente para transporte de tropas e equipamentos para as forças legalistas. Na guerra de 1851/52, contra Oribe e Rosas, foi comandante de navios, participando do bloqueio do Prata e dos transportes de tropas. Entrou em ação várias vezes, inclusive no forçamento do Passo do Tonelero (17 dezembro de 1851).

Era capitão-de-fragata; após a guerra, foi promovido a capitão-de-mar-eguerra (3 de março de 1852). Na Campanha do Uruguai (1864/65) e – imediatamente ligada a ela – na Guerra do Paraguai (1865/70) foi onde mais teve participação e destaque em operações. Era o comandante da Divisão Naval do Rio da Prata, desde 1862, com sede em Montevidéu. Já em abril de 1865, passava a chefe do Estado-Maior do Comandante-em-Chefe das Forças Navais em Operações no Rio da Prata, o Almirante Tamandaré, e acumulava essas funções com as de comandante da 2a Divisão Naval.

Durante a guerra do Paraguai, tomou parte, embarcado, nos principais eventos da primeira fase da campanha: Corrientes, Mercedes, Cuevas, a guerra das chatas, Riachuelo, Passo da Pátria, Curuzu, Curupaiti. ... Findo o turbulento ano de 1866, agravou-se o estado de seus olhos (catarata). Barroso pediu licença para tratar da saúde e se recolheu à Corte. Na mesma ocasião, Tamandaré também se retirava do teatro de operações, ao qual nenhum dos dois haveria de retornar.”

Osório, praça cavalariano aos 15 anos, logo teve seu batismo de fogo, nas lutas pela Independência, na Cisplatina (1823/1824), quando foi promovido a alferes. Emendou as campanhas, participando da guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, combatendo com garra e até começando a se tornar famoso, em Sarandi e Ituzaingó. Por essa ocasião (1825/1828), Barroso também estava nessa guerra; mas, ao que parece, nunca se encontraram.... Foi atuante no decênio heróico farroupilha (1835/1845), ao lado dos imperiais; exerceu comandos de regimento e de brigada e atingiu o posto de tenente-coronel.

Cessada a guerra civil, permaneceu em serviço, entremeando períodos de licença, principalmente para atender à sua família, de vida muito modesta e sacrificada. Vindo a guerra contra Oribe e Rosas (1851/1852), lá estava Osório comandando o seu 2o Regimento de Cavalaria, que teria assinalado papel na Batalha de Caseros, onde foi promovido a coronel, por bravura. Outro interregno de atividades em guarnições do Rio Grande e novamente na guerra. Na Campanha do Uruguai (1864/1865) e na do Paraguai (1865/70), foi comandante de divisão e do nosso Exército em operações, e de corpos de Exército nas fases pesadas da grande guerra. Sempre presente, sempre decidindo, sempre celebrado, famoso e amado. Um homem providencial. Passo da Pátria, Tuiuti, Avaí, Peribebuí, são gemas da sua coroa. 

PERSONALIDADES

Barroso era muito austero. Era um tanto rude, pouco acessível e, portanto, nada simpático. Disciplinador rigoroso, entretanto justo. Em suas funções, quaisquer que fossem, era organizado, meticuloso, detalhista se a questão requeria. Partes, relatórios, orais ou escritos, recomendava que fossem curtos, precisos, sem floreios; continha os excessos deles – os verbais, parando-os, e os escritos, restituindo-os com exigências de maior objetividade. Em geral, não era querido. Porém, era muito considerado. Tudo nele impunha natural respeito: de estrutura mediana, corado, olhos azuis, ereto, bem fardado, tinha aparência e comportamento que lhe davam boa fama.

Mas, querido certamente não era, devido à excessiva rigidez no trato, em serviço e fora dele. Isso, antes de Riachuelo... Antonio Luis von Hoonholtz, Almirante Barão de Tefé, que comandava a Canhoneira Araguari em Riachuelo, discursando em 11 de junho de 1908 (quando foi depositada a urna mortuária de Barroso na cripta do monumento a ser inaugurado na Praia do Russel, no Rio), confessou que somente durante a batalha – não anteriormente... – admirou, surpreendido, a atitude de liderança do seu chefe-de-divisão: calmo, impávido, sempre no convés do capitânia, barbas ao vento. E aquele tenente, apreciando seu comandante, jamais se esqueceria da cena majestosa; e só então passou a vê-lo, a Barroso, com simpatia, porque ali o vira como um “símbolo da verdadeira coragem”.

Osório era um homem simples; bonachão, sem ser relaxado. Nisso, o jovem oficial trupiê foi como seria, mais tarde, o maduro General. Era afável, humano, cativante; simpático naturalmente. Disciplinava os transgressores, se possível, pelo aconselhamento, mas, com a recomendação: “e não repita...” Era muito, muito querido. Mais até: era idolatrado. Esse sentimento, com que de cora- ção o brindavam seus comandados, acabou por contagiar o povo brasileiro (não apenas os gaúchos), que dele fez o seu herói militar prototípico. Dionísio Cerqueira, que foi general honorário e ministro da Guerra (interino, 1896), escritor do belíssimo livro Reminiscências da Campanha do Paraguai, narrando a invasão do Paraguai pelo Passo da Pátria, em 16 de abril de 1866, uma exitosa operação anfíbia de transposição do Rio Paraná, refere-se ao General Osório, o comandante do Exército Brasileiro.

Osório, já marechal-de-campo, desceu do navio-transporte e logo se foi terra a dentro, com seu piquete de cavalarianos e seguido, em marche-marche, pelo batalhão de Deodoro da Fonseca a respaldá-lo. Diz textualmente Dioníso: “Depois de realizados os grandes feitos vem sempre a crítica mordaz, ... Foi o que aconteceu a Osório, o imortal, o ídolo do Exército, que o amava porque via sempre a glória cintilando na ponta da sua lança legendária.

Acusam-no por ter-se arriscado temerariamente num reconhecimento à viva força, à frente de poucos homens, quando dependia de sua vida o bom êxito da operação...... Osório avançou na frente e foi o primeiro a pisar a terra paraguaia! ‘Fez mal’! – dizem os críticos frios. ‘Fez muito bem’! – exclamam os soldados entusiasmados do Exército que ele conduziu à vitória.... Nesse dia memorável, o General firmou a conquista do coração do seu Exército. Todos o amavam, por sabê-lo generoso e bravo e que ele não sentia desdouro em lhes dirigir palavras de afeto, quando passava pelos fogões dos bivaques, nas rondas de comandante-em-chefe.

Nesse dia, Osório fez-se o batedor da estrada da glória, para dar exemplo às suas tropas.” E diz também: “Nada sugestiona tanto a alma do soldado como esses atos de temerário heroísmo, consagrado pela vitória. Desde então, Osório assumiu proporções extraordinárias... Quando passava, envolto no pala, deixando ver a gola bordada da farda, com um ar risonho e bom, todos o aclamavam. Acho que foi a primeira vez que o nosso comandante recebeu vivas dos seus soldados, fascinados por ele”.

Barroso e Osório mantiveram-se autênticos – através da vida, no desfiar da carreira – em seu modo de ser, de proceder, de conviver. Ambos foram modelares, em momentos cruciais. Todavia, não há dúvida de que seus pontos culminantes pairaram, exatamente, nas batalhas fundamentais – Riachuelo, Tuiuti – como que historicamente irmanadas em um mesmo e profundo sentido de grandiosa definição de valores, de inexorável demarcação de rumos. Naquelas batalhas, os chefes supremos agiram como figuras notáveis de homens, guerreiros, líderes.

Barroso caracterizou-se por iniciativa, ousadia, coragem; sobre tudo, por criatividade. Estando o inimigo mais forte e apoiado de terra, e em posição mais favorá- vel após quatro horas de luta sem trégua, impunha-se um gesto audaz, surpreendente. Teve-o Barroso, inspirado e consciente, jogando violentamente a Amazonas contra alguns navios paraguaios e literalmente os escangalhando com a roda-de-proa; e assim, dando novo e maior alento à nossa Força Naval e fazendo que, pouco depois, o restante da força paraguaia fugisse rio acima, numa comprovação de derrota.

E tão completa foi ela, que o próprio Osório, em ofício ao Almirante Tamandaré, diria: “tenho profunda convicção de que a Marinha salvou a causa da Aliança em 11 de junho” (6 novembro de 1866). 5. Osório, em Tuiuti, desdobrou-se no comando da defesa. Acorria a toda parte, providenciando reforços, substituições de tropas, mandando tamponar brechas, enquanto pessoalmente combatia, a ponto de ser ferido por bala e lhe morrer uma montaria. Osório não era um estrategista, e sabia disto; ele era, sim, um inato comandante tático, que dosava por instinto, ousadia e prudência, e era nisso insuperável.

Mais de três decênios depois (em 1900), discursando no Círculo Militar de Buenos Aires, o historiador argentino Garmendia diria que, como se esperava de um verdadeiro chefe, Osório “conhecia o coração dos seus soldados”. Conhecia, sim. Conta-nos o General Dioniso, no livro citado, que “tínhamos, felizmente, à nossa frente, o grande Osório, que surgia como um semideus, nos momentos mais críticos. Ouvi – e narro com ufania – (ouvi) soldados feridos ... levantarem-se a meio ... e murmurarem... quando ele passava: Viva o General Osório! Viva Osório!”

Foge ao escopo deste trabalho tratarmos das duas batalhas, Riachuelo e Tuiuti – dos primórdios, do meio físico, das forças em presença, do desenrolar, da finalização, das conseqüências todas. Haveria muita coisa a dizer. Em abordagens específicas, ainda mais cresceriam os vultos de Barroso e Osório, os condutores das esplêndidas vitórias. O Brasil reconheceu os méritos de ambos. Barroso, por ato imperial de 3 janeiro de 1866, quando já era Chefe do Estado-Maior da Esquadra, no Prata, foi distinguido com o título de Barão do Amazonas, com grandeza, em sua vida.

E Osório, que vinha de longa campanha e comandava nosso Exército, na Tríplice Aliança, bem na manhã de 24 de maio – que bonito acaso! – recebera a notícia de sua ascensão a Barão do Herval, com grandeza. Um fato significativo, que tem escapado à observação dos historiadores militares, é que o primeiro regulamento para o Imperial Colégio Militar (de 9 de março de 1889), no referente a premiações, estabelecia as seguintes medalhas de ouro, que caberiam aos alunos mais bem classificados, ao final do curso (nesta ordem): 1. Duque de Caxias; 2. Almirante Barroso (não Barão do Amazonas); 3. Marquês do Herval (não General ou Marechal Osório); 4. Visconde de Inhaúma ( o Almirante. J. J. Inácio, substituto de Tamandaré, que não aparece no rol, pois ainda estava vivo); 5. Conde de Porto Alegre. 

COMO FECHO 

Em largos e rápidos traços, este é o paralelismo que entendemos apropriado ressaltar, falando ora de um, ora do outro; vamos encerrar com poucas considerações mais. Barroso foi brasileiro por opção. Pronunciou-se pela nossa Independência. Serviu ao País, na Marinha, de norte a sul do Brasil e no exterior, onde foi necessário. Sempre e somente, foi um militar devotado. Faleceu aos 71 anos (em 8 de agosto de 1882), em Montevidéu, onde se casara (em 1843, com D. Carmen Alvarez) e onde, após reformado no posto de almirante, em 1873, fixara residência definitiva.

Osório era gaúcho de costumes arraigados, radicado lá na sua província em constante efervescência. Sempre guerreiro, sempre convocado a servir. Também, sempre político, o que era um vício rio-grandense... Por isso, mantinha residência no Rio, com o que atendia às solicitações do Senado e do Ministério, representando o seu partido, o Liberal. Faleceu no casarão da Rua Riachuelo, no 117 (hoje ocupado pela Academia Brasileira de Filosofia), em 4 outubro de 1879, aos 71 anos (no cargo de Ministro da Guerra do gabinete Sinimbu). Note-se, praticamente na mesma idade de Barroso. Um paralelo, sim, entre duas existências ativas, cheias de riscos e andanças, de sucessos e de glórias; gozando, ainda em vida, do reconhecimento nacional, em distinções


FONTE: Texto extraído da Revista Navigator V.1 Nº.:1/2005, de autoria do Exmo Srº General-de-Exército Jonas de Moraes Correa Neto, o qual é membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)
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